|

Na estrada, bisões andavam como as trutas no rio, em cardumes e subindo. Deixamos o Jeep em um pequeno bosque, distante dos gigantescos “bifões”, como eu os apelidara, depois de 3 semanas sem comer carne. Os bisões são ruminantes enormes, com cornos curtos e ombros muito mais elevados que a cabeça, revestidos com uma cobertura de pêlos longos castanhos avermelhados, falhados em manchas. A cabeça é adornada com uma caprichada juba e os machos podem atingir quase dois metros de altura, com mais de três metros e meio de comprimento e cerca de duas toneladas. O que não é assustador é feio. Contrariando meus instintos, começamos a pescar descendo o rio. Estava fácil de caminhar, raso, correnteza moderada. Algumas trutas pequenas pulavam aqui e ali, comendo algum inseto minúsculo na superfície que eu não conseguia identificar. Distanciamos-nos uns dos outros. Descemos mais e mais. Nada de peixes. A Fani preferiu voltar para o carro. Estava desanimada. Não havia pegado nenhuma truta grande naquela pescaria difícil. Para piorar chovia fininho e a noite se assomava com consequente queda vertiginosa de temperatura. Bons motivos para se forrar com o saco de dormir. Nada parecia funcionar. E tudo começou a piorar quando um dos bisões que subia pela estrada, destacou-se da manada e mudou o curso. Saiu do caminho, ganhou o campo e vinha em minha direção. Olhando firme. Machão. Pisando forte. Sem correr. Em instantes eu já estava fora da água caminhando de costas, nem tão rápido que parecesse covardia, nem tão devagar que representasse afronta. Tive medo, lembrei que era humano. Medo! Homens de pouca fé! Ouvia a frase soar como um alarme em minha mente na fuga para um bosque próximo. Enquanto mordia generosamente um sanduíche, abrigado entre as árvores lia um cartaz que aconselhava temer os ataques de bisões. Você tem medo de ursos? Então conheça os bisões... Fui vencido pelo medo? E minha fé inabalável? Ou foi o sanduíche que fez efeito ou fui inflado pelo meu otimismo desesperado. Seguir os instintos. Regra número um. Subi o rio até a garganta de rochas magníficas que me chamavam, um funil. Lidando entre as árvores caídas encontrei uma posição, muito estreita, para lançar minha mosca em direção ao funil. Eu imaginava as trutas, ao fim da corredeira, de bocas abertas esperando qualquer coisa que viesse por aquele caminho único no rio. Uma espuma branca turbilhonava a superfície e morria em calmaria à frente. As coisas melhoravam. Descobri o inseto que estava na superfície. O cardápio do dia era a “caddis”, com cerca de dois milímetros de comprimento, com asas curtas, brancas e opacas. Catei a caixa de moscas secas e lá estavam algumas imitações. Escolhi uma. Atei calmamente com um nó de sangue e, lentamente, uma sombra se projetou no branco do meu olho. Uma sensação de companhia. Antes de reagir ouvi os galhos quebrando à minha direita. Um “bifão” vinha em minha direção. Homens de pouca fé! Não vou afrouxar para uma vaca, pensei. Resolvi congelar, estava camuflado entre galhos. O bisão surgiu nítido em meu campo visual. Fitou-me com um olho enorme. Parou... Olho no olho. Eu firme. Ele deve ter estranhado, se o mimetismo deu certo, eu seria a árvore seca mais feia que ele viu na vida. 
E foi embora. É o sinal. Mas ah! Homens de pouca fé! Bombacha limpa... Calculei o espaço. Era necessário um dos mais precisos e longos lançamentos que um rio pode exigir, com apresentação natural de uma mosca seca. Um lançamento muito difícil. E consegui. A mosca pousou na água com naturalidade e derivou em minha direção. Ao fim da corredeira uma truta pulou inteira para fora e se atirou sobre a mosca. Voltou para correnteza e começou uma briga de foice. Desonesta, eu tinha o cabo e ela a lâmina. Não pude manobrá-la. Linha fininha. Correu, tomou linha, voltou um pouco, recuperei. Tomou linha. Enfim consegui aproximá-la. Era linda. Era uma truta marrom em seu território selvagem. Soltei a valente que eu buscara tanto. Renovado. Vitorioso e plenamente convicto de minha fé. No entanto, eu queria mais briga! Quem sente o gosto da peleja não se apiana. Iria insistir no mesmo lugar... nem um bisão me tirou dali. Continua...
Gustavo De Marchi, Junho 2010 |