| A varanda da gorda |
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| Por Gustavo De Marchi | |
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A primeira pescaria no famoso rio Madison tinha uma aura quase sagrada. O sabor dos momentos especiais. Partimos de Bozeman, onde sediamos nosso acampamento base nos USA, e nos dirigimos à Ennis, uma cidade típica do faroeste, cruzando paisagens bucólicas, campos secos, veados, montanhas nevadas, minas abandonadas, taperas de cabanas de toras, cercas de cavaletes. Noris, Mc Allister e algumas milhas depois Ennis. Poucas casas, e menos pessoas ainda. O comércio, na única rua central, possui as fachadas altas, quadradas, com letreiros serifados. Um Saloon, algumas Fly Shops, uns dois bancos e um cinema, ainda em atividade, Madison Theatre. Tem-se a impressão, nítida, apoiada no vento e na poeira, de que a qualquer momento dois pistoleiros se enfrentarão em duelo mortal na frente do Saloon, ou que uma carroça com lona passará levantando poeira, tocada por 3 ou 4 parelhas de cavalos mustang. Não... tudo quieto, reina o silêncio e a paz e passa o Sheriff com uma estrela de ouro no peito. É, estamos no faroeste. Cruzamos a ponte e encontramos a placa onde se lê: Welcome to Ennis, população 840 habitantes e 11 milhões de trutas. A imaginação começou a ferver. Fumegar. Ela informava o que esperar do rio. Achamos um bom lugar para acampar, nos paramentamos com as fatiotas de mosqueiros e caímos na água. Após a ponte, o Madison se desdobra em múltiplos meandros e o rio principal, a calha, mandava água com uma força tal que era imposível ficar de pé na correnteza, com não mais que 30 cm de lâmina d’água. Nos dividimos. O Iotti atacou as corredeiras mais volumosas, eu e a Fani pescávamos nos braços laterais, com águas mais lênticas. O estudo dos seixos nos mostrava o que havia de insetos aquáticos no cardápio do dia para as trutas escolherem. Ninfas grandes. Muitas esverdeadas, algumas marrons, pretas em menor quantidade, tamanhos em torno de 1,5 cm. Adaptamos as moscas ao ambiente e imaginei que, como a água estava muito forte, seria interessante pescar na saída dos meandros laterais, quando estes encontram o rio principal. Se eu fosse uma truta, ficaria ali parado na água mais lenta, aguardando que o rio trouxesse alguma comida e então atacaria. Pensamento de gordo: como gastar menos energia para obter o melhor resultado. Acredito que as trutas, também, pensam assim. Lancei minha mosca na corredeira forte e esperei que esta derivasse para água mais calma. Uma trutinha, pequena, se atirou com fome na mosca. Tentei outras vezes, fiz uma varredura naquele local e não peguei mais nada. Atrás de mim a Fani tomou também uma batida, adotando a mesma idéia. Então começamos a caçar “bocas de arroio”. Achei uma boca rasa, a água passando sobre as pedras lentamente para serem engolidas pela calha grande do Madison. Água gelada e transparente. Entre ambos lados do meandro, ilhas com vegetação baixa e um paliteiro de troncos de pinheiros arrastados pelo degelo do rio, ainda em pleno andamento: o “runoff”. Além de sujar a água, aumenta o volume, a pressão da correnteza e é o inferno do mosqueiro, pois o peixe não enxerga a isca. O runoff aqui em Montana, na maioria dos rios, dura até julho. Ou seja, estamos pescando em condições muito especiais. A boca prometia. Imaginei uma trutinha glutona esperando a mosca passar, na sombra dos galhos. Como uma gorda se abanando em uma varanda, numa tarde quente e ensolarada esperando a mucama trazer um prato de broas de milho. Que cenas bizaras me passam pela tela de projeção do cinema da mente... Lancei e ninfei curto. Uma broa de milho... bem onde supunha haver uma truta gorducha, em silêncio e com movimento limitados, como se abanando na água rasa. A mosca roçou a sombra da varanda de galhos e foi dragada com força. Era a gorda! Uma truta obesa, que pensava como eu. Ela se atirou sobre a mosca como se fosse uma broa de milho com a bocarra aberta e voltou para a sombra. Sentiu-se presa. Broa envenenada, mucama desgraçada. Fugiu para a corredeira do rio. Engasgada, abrindo e fechando a boca. Forte, muito forte, tomou a linha de minha mão e vergou a vara #6. Ela queria linha, água, ar! Brigou contra a sensação nunca sentida antes. Fedeu a pau e porrete! Que trabalheira, mas, recuperei, aproximei e consegui sacá-la da água com a net, livrei a gorda do anzol e senti o mesmo que a trutona: alívio! Estava pescado. Que animal... Que lugar. O lugar perfeito para a primeira truta grande do Madison.
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