| Nez Perce Creek |
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| Por Gustavo De Marchi | |
![]() Parque Nacional de Yellowstone, Wyoming. Palco do Zé Colméia e muitas outras histórias, algumas sangrentas. O sol veio nos acordar de uma noite difícil. As barracas estavam congeladas. Híspidas de gelo. Os sacos de dormir para -16°C não resolveram muito o problema. A previsão informara -7°C. Algo dera errado e nunca saberei qual a temperatura daquela noite, que passei forrando o chão da barraca com as roupas da mochila, panfletos, mapas, sacos estanques, o que achasse. O acampamento, a quase três mil metros de altitude, fora extremo. Fizemos, com muito sofrimento, um churrasco. Sofrimento é a palavra certa. Nosso tradicional incêndio foi reduzido a um mínimo foguinho, que mereceu algumas horas de nossa atenção para não apagar por completo. Acreditamos que, além de uma boa lenha, faltava oxigênio naquela altitude. Ou combustível, qualquer coisa que queimasse e que pudesse ser lançada ao fogo. Dormimos pouco e mal, por frio e medo dos ursos, que andavam na vizinhança de nossas barracas, segundo nos avisaram. E apesar de tudo, foi um grande acampamento, inesquecível, em um lugar muito especial, em uma noite estrelada, ao som de coiotes e corujas e tentando ouvir o ruído das entranhas da Terra, já que o parque inteiro é um vulcão com uma caldeira de 90 km de diâmetro. Fizemos um café passado usando um ridículo, mas funcional, sistema de copos cortados. Enquanto a chaleira aquecia no micro-fogareiro, um esquilo fazia amizade conosco, querendo se associar ao café da manhã. Norris, o nome dele. Entretanto, dar comida aos animais é algo que não se faz. Pão com maionese, nem pensar! E o Norris implorava, de pé, com as patas juntas... pobrezinho. Era de cortar o coração. Fomos ver o famoso gêiser Old Faithful. O Velho Fiel. Espetáculo natural com erupções que podem arremessar 24 mil litros de água fervendo a uma altura de 30 a 55 m, com uma duração de até 5 minutos. Esperamos pouco para ver uma das grandes e longas erupções e fomos pescar assombrados pela beleza do mundo natural intocado à nossa volta: fumaça se desprendendo do chão, terraços rochosos, fontes naturais de água escaldante que brota do subsolo nas mais variadas tonalidades de azuis e verdes, piscinas de água quente, lama escaldante e fumarolas. Chegamos a uma pequena ponte sobre um belo arroio de águas translúcidas, mas de um tom chá. Nez Perce Creek. Nez Perce é o nome de uma tribo de nativos americanos (Niimiipuu, na língua original), que usaram o parque como rota de fuga, no verão de 1877, no episódio que se consagrou como “O Vôo dos Nez Perce”. Em seu trajeto mantiveram 25 turistas como reféns e houve execuções, em retaliação as baixas sofridas nos confrontos com o exército. Nas margens daquele belo arroio, o Chefe Joseph teria dito: "De onde o sol está agora, eu não irei lutar para sempre.". Pitoresca paisagem, com fontes de águas termais, borbulhando e fumegando, bisões enormes pastando e cheiro de enxofre. Ali começamos nossa pescaria no Yellowstone, sempre andando em sentido contrário aos bisões, para não dizer fugindo, já que atacam sem muitos motivos. Um inseto pousou em minha mão. Lentamente caminhou por meus dedos e parou. Com as assas de pé. Juntas como as patas do Norris. Como quem reza ou clama. Uma característica única de posição de asas na natureza: era uma mayfly, ou efemeróptera. Eu que pensava em como começar a pescar naquelas águas rápidas e rasas recebi uma dica do Mundo. Rapidamente, procurei nas pequenas caixas de alumínio, nos bolsos, aquela onde guardava as moscas secas. Achei, abri e comecei a comparar com o inseto que pousara em minha mão. Corpo brevemente esverdeado. Característica de que recém saíra de sua fase de vida aquática. Um pouco transparente. Asas brancas acinzentadas. Encontrei. Atei uma linha fina ao líder, dei um nó de sangue na mosca e lhe passei secante, para que flutuasse melhor. Como o arroio era muito estreito e raso me posicionei de joelhos, para que os peixes não me vissem, e fiquei observando as corredeiras. Não demorou e avistei em sequência três trutas caçando. Lancei e peguei a primeira. Uma marrom. Linda e pequena, com o halo branco ao redor das inúmeras pintas vermelhas sanguíneas. Aprecei-me para avisar aos companheiros o que havia funcionado... Pegamos muitas trutas naquela manhã pescando com moscas secas. Quase todas pequenas. Quase. Sempre há uma grande atração, em qualquer evento. Na chuva, há um pingo maior que os outros. E assim, o Iotti nos surpreendeu levantando, em uma corredeira, perto de um micro-gêiser, uma truta marrom de bom porte. |
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