Pescando na sepultura Imprimir E-mail
Por Gustavo De Marchi   

Existem expressões sobre as quais não atentamos ao siginificado, não abstraímos um sentido, apenas convivemos, sem questionar. Geralmente acontece com os nomes próprios. No entanto, ao cruzar a ponte sobre o rio Galantin, na saída de Bozeman para a pequena cidade de Ennis, naquela manhã ensolarada, compreendi a dimensão de um nome. De um dia para outro o rio que estava baixo e com águas quase limpas, se tornou um mar de lama. Condição que os pescadores denominam como “chocolate” ou “muddy”. Lembrei na hora, ao ver o rio, do pai do Chicago Blues e idealizador da guitarra elétrica, Muddy Waters, e pela primeira vez compreendi que este não era seu nome, mas uma alcunha, que significa águas lamacentas, barrentas. O rio estava muito mais que isso, parecia uma grossa pasta de paçocaquinha de amendoim que se deslocava lenta e caudalosamente, muito acima do nível do dia anterior. Era o “run off” causado pelo degelo das montanhas.
Ficamos muito preocupados, contudo, esperançosos que o rio Madison estaria em condição muito melhor. Seguimos a estrada por entre os trigais da comunidade holandesa e passamos pelos ranchos abandonados, cabanas de toras de outros tempos, consumidas pela ausência. Subimos muito as montanhas até tocar os campos de gelo que derretiam e expeliam fumaça ao sol, para depois descer até o terraço de onde se via o rio Madison, se espreguiçando lento, abaixo no vale.
Ao chegarmos à ponte dobramos à esquerda para irmos ver nosso pesqueiro predileto. Estava irreconhecível. A água passara sobre as pedras que poucas horas antes estavam completamente ao seco. Agora, corria com força e pressão impossibilitando a pesca. Seguimos para todos os outros pesqueiros rio acima e o mesmo cenário se repetia. O degelo começara e demoraria por terminar. Os companheiros queria abandonar a pesca. Eu não e expus uma idéia tentando convencer: quanto mais subirmos um rio em direção à sua nascente, menos arroios que contribuem com água de degelo e lama vão estar assomados e conseqüentemente a água estará mais limpa e com menos correnteza. Embarcamos a bordo da Ma’am e seguimos muitas milhas mais rio acima, chegando, por fim, na Three Dollar Bridge e o rio estava igual ou pior que abaixo.
Insisti na minha teoria. Era necessário subir mais ainda, até aonde não havíamos pescado. Quem sabe lá estaria bom? E continuamos subindo o rio. Nenhum ponto oferecia condições mínimas para a pesca, até que, ao sair de um estreito encontramos uma área ampla com um gigantesco lago. Paramos. Apeamos.
Que beleza de lugar, lindo cenário. Um lago com árvores retorcidas dentro, ainda em pé, mortas. Uma floresta inundada. Seria uma barragem, por certo. Sentamos na margem e ficamos contemplando. Uma truta pulou. As águas eram igualmente sujas, mas não havia correnteza. Outra trutinha pula em meio aos troncos secos. A Fani pegou o mapa, estávamos no Earthquake Lake, um nome da geografia que estávamos habituados a ler nos mapas. O Iotti me provocou, eu não conseguiria pescar nada naquela água suja. Fui correndo pegar minha tralha no bagageiro. Eu tinha dez minutos para o feito. Depois iríamos embora procurar cidades fantasmas. Comecei a pescar e as pessoas paravam e olhavam. Senti-me a atração da festa. Lancei a mosca a enormes distâncias entre as árvores e pesquei caprichosamente. Mas os peixes não morderam a isca. Ao cabo de dez minutos, perdi a aposta e entrei no carro. Quieto. Fiquei refletindo sobre a paisagem, havia um desmoronamento horrível, em um dos lados da montanha... aí caiu a ficha! Existem expressões sobre as quais não atentamos... “Earthquake Lake”, quer dizer, o lago do terremoto. Imediatamente me reportei para aquela cela escura da Gallatin Historical Society no antigo presídio, quando mexendo em jornais velhos, a nossa amiga Linda encontrou um artigo de agosto de 1959 que contava de um terremoto em Yellowstone, de proporções trágicas. Ela era pequena e caíra da cama com o tremor, há 300 km do epicnetro, lá em Missoula. A tragédia foi tamanha que 28 pessoas que estavam acampadas na base da montanha que ruiu às margens do rio Madison ficaram ali sepultadas para sempre. O desmoronamento interrompeu o curso do rio no vale estreito e formou o lago. E eu, por não atentar aos nomes, acabei pescando em uma sepultura. Mas foi o Iotti quem provocou...
 
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By D-zone