| Aonde nasceu um sonho |
| Por Gustavo De Marchi | |
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Um velhinho desabafa em um monólogo de pensamentos, frases para o público interno, enquanto, com mãos trêmulas, mas, experientes, ata com dificuldade uma mosca ao fino tippet, no fim da linha de fly: “Agora, quase todos que amei e não compreendi na juventude estão mortos. Mas eu ainda os busco. Claro, agora eu sou muito velho para ser um bom pescador. E agora, é claro, eu costumo pescar nas grandes águas sozinho, apesar de alguns amigos pensarem que eu não deveria. Como muitos outros pescadores, no oeste de Montana, aonde os dias de verão são quase árticos, em comprimento, eu geralmente não começo a pescar antes do frescor do entardecer. Quando estou só, na meia-luz do cânion, toda existência se esvaece, e parece reduzir-se a um ser único. E sobram, só, minha alma e minhas lembranças. E os sons do rio Big Blackfoot, o ritmo de quatro tempos e a esperança que um peixe emergirá. Eventualmente, todas as coisas se fundem em uma... E um rio passa através dela. O rio foi talhado pelo grande dilúvio da história... E corre sobre as rochas das fundações do tempo. Em algumas rochas há gotas eternas de chuvas. Sob as pedras estão as palavras. E algumas palavras são próprias. Eu sou assombrado pelas águas.” Mais ou menos com estas palavras se encerra o conto “A River Runs Through It”, de Norman Maclean. Verídico e fortemente autobiográfico conta, basicamente, a história do relacionamento entre o protagonista, seu irmão e seu pai. Durante décadas negou a todos os apelos de transformar a história em filme. Alegava que era o “poema de sua família”. Ao fim da vida, no entanto, cedeu. Então nasceu o filme, que em português, se chama “Nada é para Sempre”, lançado nos EUA em 1992, com direção de Robert Redford e Oscar em fotografia para Philippe Rousselot. Um drama imperdível? Muito mais. É necessário ao pescador. Tudo acontece no primeiro quarto do século XX, em uma era ainda abençoada pela inocência, em Missoula, no Estado de Montana. Como o nome sugere, é um território de geografia acidentada. Nestes casos geralmente a hidrografia é complexa e abundante. E é. Passa-se no norte dos EUA, quase divisa com o Canadá e faz muito frio. Estão aí os elementos. Muito frio, muita água e muitas trutas. Naquelas terras geladas a família MacLean é dirigida pelo patriarca e reverendo (Tom Skerrit) e sua esposa (Brenda Blethyn). O reverendo é um homem severo, rígido na educação de seus dois filhos, Norman (Craig Sheffer) e Paul (Brad Pitt), e lhes ensina a respeitar as leis de Deus e dos homens, a escrever com maestria e, o mais fantástico, a pescar com moscas, pelo sistema inglês, com os movimentos da vara marcados por um metrônomo, em quatro tempos, como se a vara fosse um instrumento musical. Para ilustrar o que era a disciplina naquela família e por aquelas bandas, uma frase resume muitos conceitos: em Montana, há três coisas para as quais nunca ninguém se atrasa: igreja, trabalho e pesca. Entre o reverendo e os filhos não havia uma clara linha que dividisse religião e pesca. Ao desenrolar da meada, pai e filhos esforçam-se por compreender as mudanças de relacionamento entre si, mantendo-se ligados ao rio Big Blackfoot e a paixão pela pesca com mosca. A evolução na técnica da pesca é uma das grandes temáticas do filme e, bem, vou parar por aqui, é uma história para ser vista e sonhada... Assista! Sonhe! E vais compreender aonde quero chegar. Tenho acreditado que nunca na história um filme influenciou tanto a pesca e, mais especificamente a pesca com mosca, como este. Um marco. Revelou ao mundo uma maneira inusitada de pescar. O Graal da pesca. Mostrou o cenário certo para os melhores sonhos de um pescador. Muitos dos mosqueiros da minha geração, melhor, arrisco a dizer, quase todos, entraram para o fly fishing após verem este filme. Em 1993, ao assistir a primeira vez, também eu, atravessei o “portal’, compreendi que havia muito mais na pesca para conquistar, e fui tomado de paixão pela modalidade. Surgiu a vontade de aprender a pescar com moscas e de buscar aqueles cenários. Isso virou uma procura frenética e incessante. Em determinada cena, numa corredeira forte do rio Big Blackfoot, me perdi para sempre, foi aonde nasceu um sonho. Nos anos que se seguiram comecei a compreender a mística e a física da pesca com mosca, a arte da imitação de insetos e a biologia do relacionamento dos peixes com o universo complexo do rio. Se Montana é o Altar da pesca com mosca, então existem alguns degraus para subir até lá. E o mais alto degrau é compreender que a pesca com mosca é muito mais que uma maneira diferente de enganar o peixe. Além de mais integrada à natureza, exige autoconhecimento e superação. O pescador deixa de ser expectador e passa a fazer parte do rio, descendo com as águas sobre as pedras, compreendendo as criaturas que vivem escondidas nas sombras das grandes rochas, ou pequenos seixos, e como elas são caçadas pelos peixes e, por fim, virar o caçador do peixe, enganado-o com o que ele mais busca. O lobo do lobo. Exige responsabilidade. Deve saber imitar esta natureza, as formas, cores, texturas, padrões e os comportamentos. E passa a testemunhar a vida acontecendo e explodindo em exuberância a cada curva de rio, a cada escorregão, ou a cada passo firme. Deve ser um guardião das águas, interagir com seus habitantes e compreender que, vista das margens, a vida, com suas lembranças, experiências e ausências é como um rio que unifica tudo, águas, rochas, plantas e animais. Compreendido isso, o pescador escalou o último degrau. Consciência: pesque e solte! |