Um rio corre... para Montana
Por Gustavo De Marchi   

O outono chegou gelando Canela e proporcionando belos e curtos crepúsculos: lembranças do verão e prelúdios do inverno, que, segundo os antigos, vai ser de rachar. Já, no Hemisfério Norte, a primavera está descongelando a paisagem, o gelo das montanhas, os rios congelados, dando movimento às águas e esquentando os animais. A bicharada sai da toca. Os insetos aquáticos eclodem, reproduzem e voltam para depositar os ovos na água. As trutas aguardam ansiosas para comerem, enfurecidas, qualquer inseto que se atrapalhe na frente delas. E eu aguardo, ansioso também, pelas trutas.

Passagem comprada. Passaportes prontos. Malas por fazer. Equipamentos espalhados por todos os lugares. Moscas por atar. Listas de pendências... Uma organização que demanda trabalho em equipe. E temos uma equipe: a intrépida “Tríplice Pandorguística”, volta à carga com força total e se prepara para alçar vôo, buscar novas aventuras, novas histórias, novos vinhos, novos aromas e sabores na terra do Tio Sam. Eu, a Fani e o Iotti vamos embarcar para uma temporada de pesca no norte do USA, na divisa com o Canadá, para, finalmente, pescarmos nos cenários do filme “Nada é para Sempre”, no Altar da Pesca com Mosca, subir o último degrau rumo ao “Grande Céu”, como é chamada Montana, o último grau da demência. Big Sky, let’s go!

Já andei contando que o sonho começou em 1993. Mas a viagem nasceu em um retorno de pescaria em Ausentes, em 2008. Era um frio de doer, estávamos vindo pela esburacada estrada da celulose, por Cambará. O conceito foi tomando forma durante o percurso da viagem, pois as idéias são como as melancias, quanto mais se anda, mais elas se aprumam na carroça. Chegamos em casa, com um projeto mais ou menos definido. Audacioso. Outdoor.

E este é o momento. Vamos partir daqui alguns dias, perfazer um longo itinerário, passando por Denver e Seatle, aonde compraremos um carro e partiremos por terra por quase 1000 km, dirigindo pelas montanhas, acampando e pescando em uma hidrografia extremamente complexa até Bozeman, cidade que escolhemos para montar o acampamento base.

Sabemos que a abertura da temporada não  é como nos outros dias na água (mesmo que seja quase exatamente como os outros dias). No fly, diferentemente das outras modalidades, não precisamos ser os primeiros; mas, sempre há a sensação que na abertura os peixes estarão mais ativos, porque estão há muito tempo sem verem uma isca. Há uma lenda que diz que os pescadores se posicionam no rio e aguardam inquietos, conferindo os ponteiros do relógio, o momento da abertura oficial da temporada, para então lançarem suas moscas. Um monumento vivo ao respeito à lei. A temporada de pesca de trutas inicia dia 15 de maio na maioria dos rios. Vamos ver se é verdade e fazer o mesmo. E estamos escolhendo o rio para este momento especial. Possivelmente um riacho, pois é primavera, o degelo deverá estar forte e os grandes rios bufando. Ou não.

Nestes momentos de preparativos, que antecedem a viagem e envolvem muita burocracia, fiquei perdido entre os papeis e esqueci das moscas. Ontem, assisti a um filme de técnicas de pesca naquelas bandas e vi que as ninfas de insetos são muito maiores que aqui, 4 ou 5 vezes maiores, e descobri que não tenho moscas para pescar lá! As moscas que eu vinha atando são muito pequenas. Vou ter que começar a montar minhas iscas do zero e em poucos dias. Moscas muito diferentes das que estamos acostumados. Um desafio.

Optamos por uma viagem “on budget”, econômica (Leia-se acampando, sempre que possível). Vamos deixar os pilas reservados para os vinhos e evitar gastos com equipamentos. O cronograma de investimentos está extremamente bem elaborado e até temo passar alguma fome, mas, sede não vou passar! Elegi levar apenas uma boa vara de fly #6, 5 partes, para caber em qualquer canto da mochila e uma carretilha, STH #2 Mr. Pop, com três cassetes de linhas, uma Floating, uma Sinking e uma Sinking Tip, ou seja, uma linha que flutua, uma que afunda e outra que afunda apenas a ponta, para pescar em todas as camadas de água e situações. Outro fator preocupante é o peso da bagagem, que não é o mesmo nos vôos internos e internacionais. Tudo tem que ser leve. Optei por levar uma barraca leve e comprar um saco de dormir para temperaturas negativas lá.  Levaremos a micro-cozinha (segundo o Iotti, “cozinha da Barbie”) e um fogareiro que pesa 40g, ironicamente batizado “lofra”. Churrascada de “costelão de pé” me parece que fará falta para ilustrar as noites geladas. O fogo não. Teremos grandes fogueiras e posso lhes garantir que com nossa presença por lá, as emissões de gás carbônico no hemisfério norte irão aumentar um pouquinho neste semestre.

Sobre a lista das coisas que eu tenho medo, como jararacas, jacarés e taxistas portenhos, não encontrarei nada lá. Apenas um medo novo surgiu e preciso incluir no rol. Jamais pensei ter que enfrentar os ursos. A região é infestada deles. Basta dizer que um dos locais que iremos passar um bom tempo acampados é o parque Yellowstone, cenário dos desenhos do Zé Colméia. Mas a vida é assim, sempre nos surpreende com novas possibilidades e desafios.