| O Encontro com as Trutas |
| Por Gustavo De Marchi | |
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Estado de Montana, uma semana de viagem por ar e terra. Acampados sentimos pela primeira vez o frio das montanhas. Tomando vinho, na beira do fogo do “ring fire“, e fazendo nosso primeiro churrasco na terra do Tio Sam, experimentamos a temperatura despencar quando o sol se pôs. Isso já eram nove e tanto da noite. A friaca veio de “a'cavalo“, montada em pêlo e escondida no vento, como os índios. As montanhas ao redor estavam nevadas e era de lá que vinha soprando o vento, não forte, mas, trazendo um pouco do gelo sobre nosso acampamento agreste, nas margens do Clearwater River. Nos recolhemos pela madrugada, após drenarmos o estoque. Calculei mal o saco de dormir. Gauchão véio, curtido nos frios serranos, subestimei o clima norte norte-americano. Deitei e consegui dormir bem, por alguns minutos. Fui acordado sentindo não frio, e sim gelo. Queimando nos ossos. Passei a noite, a primeira de minha vida, sem pregar o olho por causa do frio. E já senti frio! Vesti todas as roupas que possuía à bordo. Nada. Ainda bem que as noites são curtas por aqui e por volta das quatro horas o sol esquentou a barraca laranja. Tudo virou luz. Tudo aqueceu. E morri. Dormi, como um cachorro pachola ao sol do inverno. Alvorada, café de chaleira, sanduíches e levantar acampamento. Seguimos alguns quilômetros por uma estrada fantástica. Cruzaram veados pelo costado. Vimos um alce. Águias e corvos. Entramos em uma estrada vicinal, de "gravel", o velho chão batido. Um desaforo para os padrões gaúchos. Logo adiante encontramos a Scott Bridge, uma ponte com acesso de pesca. Havia vaga para quatro veículos. Estávamos com sorte. Enquanto vestíamos waders, waders shoes, coletes, montámos as varas, prendíamos as carretilhas, passávamos as linhas, atávamos os leaders e neles os tippets e à estes as moscas em uma ritualística individual e sagrada, que antecede todas as pescarias com mosca, fomos saudados pelos guardas da FWP (Montana Fish, Wildlife and Parks), que vieram checar nossas licenças de pesca. Como todos americanos que conhecemos, amáveis, educados, sempre dispostos à auxiliar e informar, nos deram dicas valiosas de bons pontos do rio. O rio a nossa frente era o lendário Blackfoot. Sonhado, esperado, cobiçado por cada pescador com moscas do Universo. Neste rio se passou a história real do fillme “Nada é para Sempre“. E nele correm águas e histórias, lendas, peixes e poesias, sonhos de pescadores. As águas são geladas, transparentes, as pedras roladas, vindas de longe, homogênias e bem acomodadas, com alguma vegetação. Elas são o substrato que sustenta uma natureza complexa, casa de ninfas de insetos gigantescas, as maiores que já vi. Plecópteros, tricópteros, efemerópteros e dípteros, todos ciclópicos. Mas, demorei um pouco para descobrir isso. Pescamos infrutíferamente por algum tempo. Pescamos como quem pesca pela primeira vez: ansiosos. Caminhamos rio acima. E a cada passo o Blackfoot melhorava. Entrei em uma corredeira, era perfeita. Terminava em uma enorme linha de alimentação de profundidade, um poço. Era rasa e forte. Me posicionei e comecei a virar as pedras em busca das ninfas de insetos aquáticos disponíveis para as trutas. Foi aí que me impressionei com o tamanho dos animais. Estudei rapidamente a abundância do que eu via e defini que ninfas de plecóptera bege tamano #6 a #8 seriam a grande pedida. Virando as caixas de moscas encontrei algumas, por coincidência e com surpresa, as últimas que atei antes de sair de casa, na madrugada ainda, uma semana antes. Amarrei uma ao tippet e lancei. Comecei a ninfar lentamente e a pouca distância, na corredeira. Ao fim dela, quando a água perde sua força na profundidade do poço, tomei uma forte batida! Rápida e perdida. Um erro meu? Nada! Fiquei faceiro por perder o peixe. Afinal, acertei na mosca! Antes de lançar novamente, avisei ao Iotti e a Fani a descoberta, relatei o tamanho, forma e cores dos insetos e voltei à carga. Repeti o precedimento e a minha truta estava lá me esperando. Foi a primeira truta, uma bela Westlope Cutthroat Trout. Logo, a Fani, ao meu lado, pegou outra. Adiante, rio abaixo o Iotti levantava a vara após ferrar a sua também! Uma Bull Trout! E este foi o nosso encontro com as trutas, o primeiro de muitos, nesta intrépida e maluca viagem, pescando pelos 79 rios de Montana. |